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Inteligência artificial

Deepfake e fraude de identidade: como golpistas usam IA e como a prova de vida se defende

Deepfake e fraude de identidade: como golpistas usam voz clonada, rosto sintético e injeção de vídeo, os números de 2026 e como a prova de vida se defende.

Celular fotografando um rosto gerado por computador exibido na tela de um notebook
Foto: Aidin Geranrekab / Unsplash
Neste artigo
  1. O que é deepfake e o que é fraude de identidade
  2. Como golpistas usam IA para fraudar identidades
  3. Os números da fraude de identidade
  4. Como a prova de vida e a análise de documentos se defendem
  5. Regulação: AI Act, PL 2338/2023 e LGPD
  6. O que empresas e pessoas devem fazer
  7. Verificação de identidade para o seu onboarding
  8. Perguntas frequentes

Em setembro de 2026, a Serasa Experian descreveu um golpe novo: o fraudador usa ferramentas de comparação facial em bases de rostos vazadas para achar uma pessoa real parecida com ele, com até 99% de similaridade, e se passa por ela na biometria. É o retrato de uma fase em que a fraude de identidade ganhou a ajuda da inteligência artificial. O deepfake, conteúdo falso de rosto, voz ou vídeo gerado por IA, virou ferramenta para abrir contas, tomar crédito e enganar funcionários. A defesa também evoluiu: prova de vida com desafios sorteados, detecção de vídeo injetado e análise de documentos em camadas.

Resumo rápido

  • A Serasa Experian barrou 2,86 milhões de tentativas de fraude de identidade no 1º semestre de 2026, alta de 32,9% em um ano.
  • Golpistas usam IA de quatro formas: voz clonada, rosto sintético, documento falso e injeção de vídeo na verificação.
  • Segundo a Entrust, deepfakes aparecem em 1 de cada 5 tentativas de fraude biométrica, e os ataques de injeção cresceram 40%.
  • A defesa eficaz é em camadas: documento, prova de vida, integridade da câmera, comparação facial e revisão humana nos casos limítrofes.
  • Na Europa, deepfakes devem ser rotulados desde agosto de 2026. No Brasil, o PL 2338/2023 ainda aguarda parecer na Câmara.

O que é deepfake e o que é fraude de identidade

Fraude de identidade é usar dados ou a aparência de outra pessoa, ou de alguém que nem existe, para obter uma vantagem: abrir conta, contratar crédito, fazer compras ou desviar pagamentos. A IA não criou esse crime, mas barateou e escalou as ferramentas. Os termos abaixo aparecem o tempo todo nesse debate.

Deepfake
Vídeo, foto ou áudio criado ou alterado por IA para parecer real. Pode trocar o rosto de uma pessoa, animar uma foto ou imitar uma voz.
Voz clonada
Imitação sintética da voz de alguém, gerada a partir de amostras curtas, como áudios de mensagens ou vídeos publicados.
Identidade sintética
Identidade montada com dados reais e inventados misturados, que não corresponde a uma pessoa de verdade.
Prova de vida
Verificação de que há uma pessoa real e presente diante da câmera, e não uma foto, máscara, gravação ou vídeo gerado. Em inglês, liveness detection.
Ataque de apresentação
Mostrar à câmera algo que não é o rosto vivo: foto impressa, tela de outro aparelho, máscara.
Ataque de injeção
Inserir um vídeo ou imagem pronta direto no fluxo de dados, por câmera virtual, emulador ou app adulterado, sem passar pela câmera real.

Como golpistas usam IA para fraudar identidades

Voz clonada no golpe por telefone e mensagem

É a versão com IA do velho golpe do falso parente ou do falso diretor. Com alguns segundos de áudio, o criminoso gera mensagens ou ligações com a voz da vítima imitada e pede um Pix urgente. Em empresas, o alvo costuma ser quem aprova pagamentos: uma "ordem do diretor" por áudio para pagar um fornecedor novo. A defesa aqui é de processo, não de tecnologia: confirmar por outro canal antes de pagar.

Rosto sintético na selfie e na videochamada

Ferramentas de troca de rosto em tempo real permitem que o fraudador apareça numa chamada de vídeo com o rosto de outra pessoa, ou gere uma selfie convincente a partir de fotos públicas. O relatório 2026 da Entrust, que analisou mais de 1 bilhão de verificações em 195 países entre setembro de 2024 e setembro de 2025, aponta deepfakes ligados a 1 de cada 5 tentativas de fraude biométrica e alta de 58% no uso de selfies falsificadas por deepfake em 2025.

Documentos gerados ou adulterados por IA

O documento falso ainda é, na maior parte, físico: segundo a Entrust, falsificações físicas foram 47% das fraudes documentais em 2025. Mas as digitais subiram para 35%, ante uma média de 29% entre 2022 e 2024. A Sumsub calcula que cerca de 1 em cada 50 documentos forjados que detectou em 2025 foi gerado por IA, uma categoria que praticamente não aparecia no ano anterior.

Injeção de vídeo na prova de vida

É o ataque mais técnico e o que mais preocupa quem faz onboarding digital, o cadastro feito pelo app ou pelo site. Em vez de mostrar uma foto à câmera, o fraudador intercepta o caminho: usa uma câmera virtual ou um celular emulado para entregar ao sistema um vídeo pronto, às vezes um deepfake que responde aos comandos. Segundo a Entrust, os ataques de injeção cresceram 40% de um ano para o outro.

O golpe do sósia

Aqui a IA não gera o rosto: ela procura um. No golpe descrito pela Serasa Experian, o criminoso compara o próprio rosto com bases de faces vazadas, seleciona identidades reais com alta semelhança e usa os dados dessas pessoas para tentar passar na biometria facial. A lógica se inverte: o fraudador não escolhe a vítima e tenta imitá-la, ele parte do próprio rosto e procura quem se parece com ele.

Os números da fraude de identidade

2,86 mitentativas de fraude de identidade barradas no 1º sem. de 2026 (Serasa Experian)
1 a cada 5,5 sfrequência dessas tentativas no período (Serasa Experian)
2,26 miregistros de estelionato no Brasil em 2025 (Anuário FBSP 2026)
+180%alta da fraude sofisticada no mundo em 2025 (Sumsub)

No Brasil, o Mapa da Fraude da Serasa Experian registrou 2,86 milhões de tentativas de fraude de identidade barradas no primeiro semestre de 2026, 32,9% a mais que no mesmo período de 2025. A empresa estima em R$ 3,77 bilhões o prejuízo que teria sido causado se essas tentativas tivessem dado certo.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, contou 2.261.055 registros de estelionato em 2025. Segundo o Fórum, o crime cresceu 429,8% desde 2018 e se consolidou como o principal crime contra o patrimônio no país. E esses são só os casos que chegaram à polícia.

No cenário global, a Sumsub observou um movimento curioso: a taxa geral de fraude de identidade caiu de 2,6% para 2,2% entre 2024 e 2025, mas a fraude sofisticada cresceu 180%. Ataques em várias etapas, que combinam dados vazados, engenharia social e mídia sintética, passaram de 10% para 28% do total. Em resumo: há menos tentativas amadoras e mais ataques bem preparados.

Na prática

Boa parte desses números vem de empresas que vendem verificação de identidade, cada uma medindo a própria base. Eles mostram tendência, não um retrato exato do mercado, e percentuais de fontes diferentes não devem ser comparados entre si.

Como a prova de vida e a análise de documentos se defendem

A conclusão da Serasa Experian sobre o golpe do sósia resume o consenso do setor: a biometria facial não foi quebrada, mas não deve atuar de forma isolada. A defesa eficaz combina camadas, cada uma barrando um tipo de ataque.

Defesa em camadas contra fraude de identidade CAMADA DE DEFESA O QUE ELA BARRA 1 Análise do documento Documento adulterado ou gerado por IA 2 Prova de vida com desafio sorteado Foto, máscara e vídeo pré-gravado 3 Integridade da câmera e do aparelho Injeção de vídeo e câmera virtual 4 Comparação facial Rosto diferente do documento 5 Nota de risco e revisão humana Casos limítrofes, como o sósia Sinais de dispositivo, de comportamento e de dados cadastrais entram em todas as camadas.
Nenhuma camada sozinha resolve: o ganho vem da combinação e de aprofundar a verificação conforme o risco.

Prova de vida ativa, passiva e com desafio sorteado

A prova de vida passiva analisa uma selfie ou um vídeo curto em busca de sinais de que não há uma pessoa real: bordas de tela, reflexos de papel, textura de máscara. A ativa pede que a pessoa faça algo, como virar o rosto ou piscar. O ponto fraco da versão ativa é a previsibilidade: se os comandos são sempre os mesmos, o fraudador grava ou gera um vídeo que os cumpre. Por isso os sistemas mais robustos sorteiam os movimentos na hora. Um vídeo pré-gravado não sabe o que vai ser pedido, e um deepfake em tempo real precisa reagir sem falhas a comandos inesperados, o que aumenta muito o custo do ataque.

Ataque de apresentação e ataque de injeção pedem defesas diferentes

Para ataques de apresentação, a referência técnica é a norma ISO/IEC 30107-3, que define como testar a detecção desses ataques. Para injeção, o comitê europeu de normalização publicou a especificação técnica CEN/TS 18099, sobre detecção de injeção de dados biométricos. A diferença importa na hora de contratar: um sistema que barra bem fotos e máscaras pode ser vulnerável a vídeo injetado. As defesas contra injeção verificam se a imagem vem mesmo da câmera física do aparelho, se o app não foi adulterado e se o dispositivo não é um emulador.

Documento, rosto e contexto

A análise do documento confere elementos visuais, consistência de fontes e campos e sinais de edição digital, e cruza os dados com outras fontes. A comparação facial mede a semelhança entre o rosto da prova de vida e a foto do documento. E o contexto completa o quadro: o mesmo rosto aparecendo em várias contas, muitas tentativas a partir do mesmo aparelho, dados de cadastro que não conversam entre si. É esse cruzamento que pega o golpe do sósia, em que o rosto é real e parecido, mas a história não fecha.

Regulação: AI Act, PL 2338/2023 e LGPD

A União Europeia tem a regra mais avançada. O AI Act entrou em vigor em 1º de agosto de 2024 e está sendo aplicado por etapas, segundo o calendário atualizado pela Comissão Europeia em outubro de 2026:

DataO que passou a valer no AI Act
2 fev. 2025Práticas proibidas, entre elas a coleta indiscriminada de imagens de rostos para criar bases de reconhecimento facial
2 ago. 2025Regras para modelos de IA de propósito geral e de governança
Ago. 2026Regras de transparência: conteúdo gerado por IA deve ser identificável e deepfakes devem ser rotulados de forma clara e visível
2 dez. 2027Regras para sistemas de alto risco, como identificação biométrica, prazo estendido pelo pacote de simplificação em vigor desde julho de 2026

No Brasil, não há lei geral de IA em vigor. O PL 2338/2023, o marco legal da inteligência artificial, foi aprovado pelo Senado em 10 de dezembro de 2024. Na Câmara, está na comissão especial criada para analisá-lo, com a situação "aguardando parecer do relator", o deputado Aguinaldo Ribeiro, designado em maio de 2025. Até o fim de outubro de 2026, a ficha de tramitação registrava apenas novos projetos sendo anexados a ele.

Enquanto isso, a LGPD já dá a base para a verificação de identidade. A lei classifica o dado biométrico como dado pessoal sensível e permite tratá-lo, sem consentimento específico, para garantir a prevenção à fraude e a segurança do titular em processos de identificação e autenticação de cadastro em sistemas eletrônicos. Isso não dispensa transparência, segurança e cuidado com o armazenamento. E o uso de deepfake para enganar alguém e obter vantagem pode configurar crimes já previstos, como o estelionato, inclusive na forma de fraude eletrônica.

Atenção

Selfie com documento enviada por WhatsApp, e-mail ou formulário genérico é um presente para fraudadores. Ela pode ser reutilizada, vazada ou usada para treinar um deepfake. Colete biometria só em fluxo próprio, com prova de vida, e guarde os dados com criptografia e acesso restrito.

O que empresas e pessoas devem fazer

Para quem faz cadastro de clientes, concede crédito ou movimenta dinheiro, o caminho é reforçar o onboarding e os processos internos:

  1. Verifique em camadas e conforme o risco. Abertura de conta simples pede menos atrito que um pedido de crédito alto. Aprofunde a verificação quando o risco sobe.
  2. Exija prova de vida com desafios aleatórios e pergunte ao fornecedor como ele detecta ataques de injeção, não só de apresentação.
  3. Cruze documento, rosto e dados. Compare a foto do documento com a prova de vida e confira os dados cadastrais em outras fontes.
  4. Monitore repetições. Vários rostos para a mesma identidade, ou o mesmo rosto em várias contas, são sinal de alerta.
  5. Mantenha revisão humana para casos limítrofes, com um parecer que explique por que o sistema desconfiou.
  6. Blinde os pagamentos internos. Nenhuma transferência fora do padrão sai só com áudio, vídeo ou e-mail. Confirme por um segundo canal e use autenticação de dois fatores nos sistemas financeiros.

Para as pessoas, as recomendações da Serasa Experian são práticas: não enviar fotos de documentos nem selfies segurando documentos por canais não oficiais, fornecer biometria só em apps e sites oficiais, desconfiar de pedidos inesperados de reconhecimento facial por link ou QR Code e monitorar o CPF. Os golpes que abrem caminho para essas fraudes estão em golpes digitais e phishing, e a visão completa de proteção para negócios, em segurança cibernética para empresas.

Verificação de identidade para o seu onboarding

O TKI Verify foi feito para esse cenário. Ele combina prova de vida em vídeo com movimentos sorteados, leitura e conferência de documentos e comparação facial, e entrega uma nota de 0 a 100% com recomendação. Um parecer de IA explica cada item analisado, e a central de onboard permite que a equipe revise os casos limítrofes antes de aprovar.

Perguntas frequentes

O que é deepfake?

É um conteúdo falso, como vídeo, foto ou áudio, criado ou alterado com inteligência artificial para parecer real. Em fraudes, é usado para imitar o rosto ou a voz de outra pessoa e enganar sistemas de verificação ou pessoas.

A prova de vida consegue detectar deepfake?

Consegue reduzir muito o risco quando combina desafios sorteados na hora, detecção de ataques de apresentação, como foto ou tela diante da câmera, e detecção de ataques de injeção, quando o vídeo falso entra direto no sistema. Nenhuma camada sozinha basta, por isso a análise de documento, a comparação facial e os sinais do dispositivo entram juntos.

O que é ataque de injeção na biometria?

É quando o fraudador não mostra nada à câmera: ele usa uma câmera virtual, um emulador ou um aplicativo adulterado para inserir um vídeo ou imagem pronta, muitas vezes um deepfake, direto no fluxo de verificação. Segundo a Entrust, esse tipo de ataque cresceu 40% em um ano.

O que é o golpe do sósia?

É uma fraude identificada pela Serasa Experian em 2026. O criminoso usa ferramentas de comparação facial em bases de rostos vazadas para encontrar pessoas reais muito parecidas com ele, com até 99% de similaridade, e usa os dados delas para tentar passar na validação biométrica.

Existe lei sobre deepfake e inteligência artificial no Brasil?

Não há uma lei geral de IA em vigor. O PL 2338/2023 foi aprovado no Senado em dezembro de 2024 e aguarda parecer do relator na Câmara. A LGPD trata dado biométrico como dado sensível, e usar deepfake para obter vantagem enganando alguém pode configurar crimes já previstos, como estelionato.

Como se proteger de golpe com voz clonada?

Desconfie de pedidos urgentes de dinheiro por áudio ou ligação, mesmo com voz conhecida. Desligue e retorne por um número que você já tem, combine uma palavra-chave com a família e, nas empresas, exija confirmação por um segundo canal para qualquer pagamento fora do padrão.

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