Criptografia de dados: o que é, como funciona e onde usar
Criptografia de dados explicada: simétrica e assimétrica (AES, RSA, curvas elípticas), hash, TLS, dados em repouso, gestão de chaves, pagamentos e LGPD.

Neste artigo
- O que é criptografia de dados
- Criptografia simétrica x assimétrica
- Hash: parecido, mas não é criptografia
- Em trânsito, em repouso e de ponta a ponta
- Gestão de chaves: onde a segurança realmente mora
- Criptografia no setor de pagamentos
- O que a LGPD diz sobre segurança e criptografia
- Como aplicar no dia a dia
- Perguntas frequentes
Criptografia de dados é a técnica que transforma uma informação legível em um texto embaralhado, que só volta a fazer sentido para quem tem a chave certa. Ela protege o que você envia pela internet, o que fica guardado em discos e bancos de dados e o que circula entre aplicativos. Funciona com dois ingredientes: um algoritmo público e conhecido, como o AES, e uma chave secreta. A segurança não está em esconder o método, e sim em proteger a chave.
Resumo rápido
- Criptografia simétrica usa uma chave só (AES). A assimétrica usa um par de chaves, pública e privada (RSA, curvas elípticas).
- Hash não é criptografia reversível: gera uma impressão digital sem volta, útil para integridade e senhas.
- Proteja os dados em três momentos: em trânsito (TLS), em repouso (disco e banco) e, quando possível, de ponta a ponta.
- O ponto fraco quase sempre é a chave. Gestão de chaves vale tanto quanto o algoritmo.
- A LGPD exige medidas técnicas de segurança e leva em conta, após um incidente, se os dados estavam ininteligíveis.
O que é criptografia de dados
A palavra vem do grego e quer dizer, mais ou menos, "escrita escondida". Na computação, o processo tem nomes próprios. O dado original é o texto claro. O resultado embaralhado é o texto cifrado. Cifrar é transformar o primeiro no segundo; decifrar é o caminho de volta. Para isso, o algoritmo combina o dado com uma chave, que é um número muito grande, gerado ao acaso.
Um bom algoritmo resiste mesmo quando o atacante conhece todo o método: sem a chave, não há atalho viável, e testar todas as combinações de uma chave de 256 bits está fora do alcance de qualquer computador atual. Por isso os padrões sérios são abertos e revisados publicamente. Desconfie de quem promete "criptografia própria e secreta".
A criptografia entrega três garantias, que valem a pena separar:
- Confidencialidade: só quem tem a chave lê o conteúdo.
- Integridade: qualquer alteração no caminho é detectada.
- Autenticidade: dá para confirmar quem enviou ou assinou o dado.
Criptografia simétrica x assimétrica
Simétrica: uma chave para tudo
Na criptografia simétrica, a mesma chave cifra e decifra. É rápida e serve para grandes volumes de dados. O padrão mais usado é o AES (Advanced Encryption Standard), publicado pelo NIST, o instituto de padrões dos Estados Unidos, no FIPS 197, em 2001. O documento ganhou uma atualização editorial em 2023, sem mudar o algoritmo. O AES trabalha em blocos de 128 bits e aceita chaves de 128, 192 ou 256 bits, daí os nomes AES-128 e AES-256.
Na prática, o AES aparece combinado com um modo de operação, que define como os blocos são encadeados. O mais comum hoje é o GCM, um modo autenticado: além de esconder o conteúdo, ele gera uma etiqueta que acusa qualquer alteração no texto cifrado. Quando você lê "AES-256-GCM", é isso: AES com chave de 256 bits no modo GCM.
O problema da simétrica é a distribuição. Se as duas pontas precisam da mesma chave, como entregá-la sem que alguém a copie no caminho?
Assimétrica: um par de chaves
A criptografia assimétrica, ou de chave pública, resolve isso com um par de chaves ligadas matematicamente. A chave pública pode ser divulgada a qualquer um e serve para cifrar ou para conferir assinaturas. A chave privada fica só com o dono e serve para decifrar ou para assinar.
- RSA: o algoritmo de chave pública mais conhecido, baseado na dificuldade de fatorar números enormes. Exige chaves longas, de 2048 bits ou mais.
- Curvas elípticas (ECC): chegam ao mesmo nível de segurança com chaves bem menores, o que economiza processamento e bateria. Aparecem em troca de chaves (ECDH) e em assinaturas digitais (ECDSA e Ed25519).
A assimétrica é bem mais lenta que a simétrica. Por isso os sistemas reais usam as duas juntas, no que se chama de criptografia híbrida: a parte assimétrica combina com segurança uma chave de sessão, e o AES cifra o volume de dados com essa chave. É exatamente o que acontece quando você abre um site com cadeado.
Computadores quânticos de grande porte, se vierem a existir, quebrariam RSA e curvas elípticas. Em agosto de 2024, o NIST publicou os primeiros padrões pós-quânticos (FIPS 203, 204 e 205) e informa que pretende retirar os algoritmos vulneráveis dos seus padrões até 2035. O AES com chave de 256 bits continua considerado resistente.
Hash: parecido, mas não é criptografia
Uma função de hash transforma qualquer dado, de uma palavra a um arquivo de vários gigabytes, em uma sequência de tamanho fixo, como uma impressão digital. O SHA-256, por exemplo, sempre devolve 256 bits. Mudou uma vírgula no arquivo, o hash muda por completo.
A diferença essencial é que o hash não tem volta. Não existe chave para recuperar o dado original a partir dele. Por isso ele serve para:
- conferir se um arquivo ou uma mensagem chegou sem alteração;
- compor assinaturas digitais, em que se assina o hash do documento;
- guardar senhas, desde que com algoritmos lentos e próprios para isso, como Argon2id e bcrypt, assunto do artigo sobre como criar senhas seguras.
Algoritmos antigos como MD5 e SHA-1 já tiveram colisões demonstradas, ou seja, dois dados diferentes com o mesmo hash, e não devem ser usados para segurança.
| Simétrica | Assimétrica | Hash | |
|---|---|---|---|
| Chaves | Uma, compartilhada | Par: pública e privada | Nenhuma (ou uma chave extra, no HMAC) |
| Tem volta? | Sim, com a chave | Sim, com a chave privada | Não |
| Velocidade | Alta | Baixa | Alta (exceto os feitos para senha) |
| Exemplos | AES, ChaCha20 | RSA, ECDH, ECDSA, Ed25519 | SHA-256, SHA-3, Argon2id |
| Uso típico | Cifrar arquivos, discos, bancos de dados | Trocar chaves, assinar, certificados | Integridade, assinaturas, senhas |
Em trânsito, em repouso e de ponta a ponta
Dizer que um sistema "usa criptografia" diz pouco. A pergunta certa é: em que momento o dado está protegido, e quem consegue lê-lo?
Em trânsito: TLS
É a proteção do dado enquanto ele viaja pela rede. O protocolo padrão é o TLS (Transport Layer Security), o "S" do HTTPS. A versão atual é a 1.3, publicada pela IETF em 2018 e revisada em 2026 na RFC 9846, que manteve o mesmo número de versão. O TLS 1.3 eliminou a troca de chaves com RSA estático e passou a garantir sigilo futuro (forward secrecy): mesmo que a chave privada do servidor vaze um dia, as conversas antigas gravadas continuam ilegíveis.
Em repouso: disco, banco e backup
É a proteção do dado guardado. Pode ser feita no disco inteiro, no banco de dados, em colunas específicas (como CPF e dados bancários) ou no próprio aplicativo, antes de gravar. Ela protege contra o roubo de um notebook, o descarte de um disco ou a cópia de um backup. Mas atenção: se o servidor decifra o dado para trabalhar com ele, quem invadir o servidor em funcionamento também pode ver.
De ponta a ponta
Na criptografia de ponta a ponta (E2E, de end-to-end), o dado é cifrado no aparelho de quem envia e só é decifrado no aparelho de quem recebe. O servidor no meio apenas repassa texto cifrado. É o modelo de aplicativos de mensagem que adotam E2E e de cofres de senha bem feitos.
Conhecimento zero (zero-knowledge)
Em aplicativos, conhecimento zero é o nome dado a um tipo de criptografia de ponta a ponta em que o próprio fornecedor não tem como ler seus dados. Funciona assim: a partir de uma senha que só você sabe, o aplicativo deriva uma chave no seu aparelho, usando um algoritmo lento de propósito, como o Argon2id. Essa chave cifra cada item antes de qualquer envio. O servidor guarda e sincroniza apenas texto cifrado e nunca recebe a senha nem a chave.
A consequência é dupla. Se o servidor for invadido, o atacante leva um monte de dados ilegíveis. Em compensação, se você esquecer a senha principal, o fornecedor não consegue recuperar o conteúdo por você. Não confunda com "provas de conhecimento zero", um conceito matemático diferente.
Gestão de chaves: onde a segurança realmente mora
Algoritmos modernos raramente são quebrados. O que vaza são chaves: esquecidas em um repositório de código, gravadas no mesmo servidor do banco de dados, compartilhadas por e-mail. Por isso, gestão de chaves é a parte da criptografia que mais exige disciplina.
- Gere chaves com um gerador aleatório seguro. Nunca derive chaves de dados previsíveis, como datas ou nomes.
- Separe a chave do dado. A chave não pode morar no mesmo lugar do conteúdo que ela protege. Use um cofre de segredos ou um serviço de gestão de chaves (KMS).
- Use HSM para as chaves mais críticas. O HSM (Hardware Security Module) é um equipamento que guarda chaves e faz operações criptográficas sem deixar a chave sair dele.
- Adote criptografia em envelope. Cada dado é cifrado com uma chave própria, e essas chaves são cifradas por uma chave-mestra guardada no KMS ou no HSM. Trocar a chave-mestra fica simples.
- Troque chaves periodicamente e após qualquer suspeita. Tenha um procedimento documentado de rotação e de revogação.
- Restrinja e registre o acesso. Poucas pessoas e sistemas podem usar cada chave, e todo uso deve deixar registro.
Cifrar o banco de dados e guardar a chave em um arquivo de configuração no mesmo servidor é como trancar a porta e deixar a chave no trinco. Para quem invade o servidor, o efeito é quase o mesmo de não cifrar.
Criptografia no setor de pagamentos
Pagamentos são um dos usos mais intensos de criptografia. Uma única compra com cartão passa por várias camadas, descritas no artigo sobre como funciona uma transação com cartão:
- Chip do cartão: gera um criptograma único a cada compra, o que impede reaproveitar os dados de uma transação para fazer outra.
- Maquininha: cifra a senha digitada no próprio teclado do terminal e, nas soluções de criptografia ponto a ponto, também os dados do cartão. O dado só é aberto no ambiente seguro do processador, protegido por HSMs.
- Lojas virtuais e APIs: o tráfego entre navegador, gateway, adquirente e emissor acontece sobre TLS, e os dados guardados precisam estar cifrados ou substituídos por tokens.
O padrão PCI DSS, que rege a segurança dos dados de cartão, exige criptografia forte na transmissão por redes públicas e proteção dos dados armazenados. Muitas vezes, a melhor saída é nem guardar o dado e usar tokenização, como explica o artigo sobre PCI DSS e tokenização. No Open Finance, o compartilhamento de dados entre instituições também depende de canais cifrados e autenticados.
Criptografia não impede que alguém use uma senha roubada ou engane um funcionário. Ela precisa andar junto com autenticação forte e treinamento, temas do guia de segurança cibernética para empresas e do artigo sobre golpes digitais e phishing.
O que a LGPD diz sobre segurança e criptografia
A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) não obriga o uso de um algoritmo específico e nem usa a palavra criptografia. Mas ela cria deveres que, na prática, levam a ela:
- Princípio da segurança (art. 6º, VII): o tratamento de dados deve usar medidas técnicas e administrativas aptas a proteger os dados pessoais contra acessos não autorizados e incidentes.
- Dever de segurança (art. 46): os agentes de tratamento devem adotar essas medidas, e elas precisam ser pensadas desde a concepção do produto ou serviço até a execução. A ANPD pode definir padrões técnicos mínimos.
- Incidentes (art. 48): o controlador deve comunicar à ANPD e aos titulares os incidentes que possam causar risco ou dano relevante. Ao julgar a gravidade, a lei considera se havia medidas técnicas que tornassem os dados ininteligíveis para terceiros não autorizados.
A Resolução CD/ANPD nº 15, de 2024, regulamentou essa comunicação e fixou o prazo de três dias úteis, salvo prazo diferente em lei específica. A própria ANPD, ao explicar como avaliar o risco de um incidente, cita como fator se os dados estavam ou não protegidos por criptografia. Em resumo: dados bem cifrados, com a chave protegida em outro lugar, reduzem muito o estrago de um vazamento e o peso dele na avaliação da autoridade.
- Texto cifrado
- O dado depois de cifrado, ilegível sem a chave.
- HSM
- Equipamento dedicado que guarda chaves e executa operações criptográficas sem expor a chave.
- KDF
- Função de derivação de chave: transforma uma senha em uma chave criptográfica, de forma lenta para dificultar tentativas.
- Sigilo futuro
- Propriedade que mantém conversas antigas protegidas mesmo se uma chave de longo prazo vazar depois.
Como aplicar no dia a dia
Para pessoas, o básico é: manter o celular e o computador com criptografia de disco ativada e bloqueio por senha, só digitar dados em sites com HTTPS, preferir aplicativos com criptografia de ponta a ponta para conversas e guardar senhas em um cofre que cifre tudo no próprio aparelho. Para empresas, o roteiro passa por mapear onde estão os dados pessoais, ligar TLS em todos os serviços, cifrar bancos e backups, tirar as chaves do código e documentar quem tem acesso a quê.
Um exemplo de conhecimento zero na prática é o TKI Pass, app gratuito da TKI que junta autenticador de dois fatores e cofre de senhas e notas. Cada item é cifrado com AES-256-GCM, e a chave é derivada da sua senha com Argon2id no próprio aparelho, de modo que o servidor só recebe texto cifrado. Ele roda em iPhone, iPad, Mac, Apple Watch e navegador, sem anúncios e sem rastreadores.
Perguntas frequentes
O que é criptografia de dados?
É a transformação de uma informação legível em um texto embaralhado, com a ajuda de um algoritmo e de uma chave. Só quem tem a chave certa consegue voltar ao conteúdo original.
Qual a diferença entre criptografia simétrica e assimétrica?
Na simétrica, a mesma chave cifra e decifra, como no AES. Na assimétrica, há um par de chaves: a pública, que pode ser divulgada, e a privada, que fica só com o dono, como no RSA e nas curvas elípticas.
Hash é criptografia?
Não exatamente. O hash gera uma impressão digital de tamanho fixo e não tem volta: não existe chave para recuperar o dado original. Ele serve para conferir integridade e guardar senhas, não para esconder um conteúdo que precisa ser lido depois.
O que é criptografia AES-256?
É o algoritmo AES, padronizado pelo NIST no FIPS 197, usado com chave de 256 bits. É criptografia simétrica, rápida e considerada segura, por isso aparece em discos, bancos de dados, VPNs e aplicativos.
A LGPD obriga a usar criptografia?
A lei não cita a palavra criptografia, mas exige medidas técnicas aptas a proteger os dados pessoais. Em caso de incidente, a LGPD considera se os dados afetados estavam ininteligíveis para terceiros, o que na prática aponta para a criptografia.
O que significa conhecimento zero em um aplicativo?
Significa que o dado é cifrado no seu aparelho, com uma chave derivada de uma senha que só você sabe. O servidor guarda apenas texto cifrado e não consegue ler o conteúdo, nem se quisesse.



