Drex: o que é o real digital e em que pé está o projeto do Banco Central
Drex, o real digital do Banco Central: o que é, o que o piloto testou, por que a blockchain saiu do plano e em que pé o projeto está no fim de 2026.

Neste artigo
O Drex é o projeto do Banco Central para criar o real digital, uma plataforma para liquidar operações com ativos digitais em moeda de banco central. Ele passou por duas fases de piloto entre 2023 e 2025, testando blockchain com bancos e outras instituições. Em 2025, o BC mudou de rumo: desligou a plataforma de testes, disse que a tecnologia não se mostrou viável e passou a mirar uma entrega menor, sem blockchain, focada em garantias de crédito. Até o início de novembro de 2026, não há Drex para a população nem data oficial para a próxima etapa.
Resumo rápido
- Drex era o nome da moeda digital do Banco Central (CBDC, na sigla em inglês) e da plataforma em que ela circularia.
- O piloto teve duas fases, ambas encerradas: a primeira testou privacidade e programabilidade; a segunda, 13 casos de uso com ativos tokenizados.
- Em novembro de 2025, o BC desligou a plataforma em blockchain. O motivo central foi a dificuldade de garantir a privacidade exigida pela lei.
- O foco passou a ser a reconciliação de gravames, para facilitar o crédito com garantia. Representantes do BC dizem que o projeto deixou de ser uma CBDC.
- O Drex não substitui o dinheiro em espécie nem o Pix, e não é criptomoeda. Não há nada que o cidadão precise fazer.
O que é o Drex
O Banco Central divulgou as primeiras diretrizes do chamado Real Digital em maio de 2021. Em agosto de 2023, o projeto ganhou o nome Drex. Segundo o BC, o "d" e o "r" fazem referência a Real Digital, o "e" vem de eletrônico e o "x" traz a ideia de conexão, como no Pix.
A proposta original, que ainda aparece na página oficial do projeto, era criar um ambiente integrado e padronizado em que vários tipos de operação com ativos digitais fossem liquidados de forma segura. O cliente acessaria a plataforma por meio de uma instituição autorizada, como um banco, que converteria o saldo da conta em Drex na sua carteira digital.
O exemplo que o BC usa é a compra de um carro. Hoje, comprador e vendedor desconfiam um do outro: quem paga primeiro corre o risco de não receber o documento, e quem transfere primeiro corre o risco de não receber o dinheiro. Com um contrato inteligente, a operação só se conclui quando as duas partes cumprem a sua parte, e dinheiro e propriedade trocam de mãos ao mesmo tempo. Se algo falha, cada um fica com o que tinha. Esse mecanismo se chama entrega contra pagamento (DvP, do inglês delivery versus payment).
No piloto, as transações eram liquidadas em duas versões da moeda: o Drex de atacado, usado entre instituições, e o Drex de varejo, que representaria o dinheiro dos clientes. Usuários finais não participaram: as operações deles eram simuladas.
O que é uma CBDC
CBDC é a sigla em inglês para Central Bank Digital Currency, moeda digital de banco central. É dinheiro emitido diretamente pelo banco central em formato digital, com o mesmo valor da moeda física. A diferença para o saldo que você já tem no banco é sutil, mas importante: o saldo em conta é uma dívida do seu banco com você, enquanto a CBDC seria uma obrigação do próprio banco central, como a cédula na sua carteira.
Há dois tipos. A CBDC de atacado circula só entre instituições financeiras, para liquidar operações entre elas. A CBDC de varejo fica à disposição do público. Vários países estudam ou testam moedas desse tipo, e poucos as colocaram em uso amplo.
No Brasil, a ideia de uma CBDC perdeu força. Em novembro de 2025, Breno Lobo, chefe-adjunto do Departamento de Competição e de Estrutura do Mercado Financeiro do BC, afirmou em evento que o banco "deu um passo para trás" e que o projeto "não é uma CBDC". Segundo ele, o objetivo passou a ser uma infraestrutura para contratos inteligentes que garantam a entrega contra pagamento.
Linha do tempo do piloto Drex
O piloto foi instituído pela Resolução BCB nº 315, de abril de 2023. Na primeira fase, o BC recebeu 36 propostas, de mais de 100 instituições, e selecionou 16 participantes, entre bancos, cooperativas, instituições de pagamento e empresas de tecnologia. A incorporação à plataforma começou em julho de 2023, e o caso de uso testado foi a compra e venda de título público federal entre clientes de instituições diferentes, para avaliar privacidade e programabilidade.
A segunda fase começou em setembro de 2024, com regulamento atualizado pela Resolução BCB nº 423. Foram escolhidos 13 temas a partir de 42 propostas, entre eles cessão de recebíveis, crédito com garantia em CDB e em títulos públicos, transações com imóveis, automóveis, debêntures e ativos do agronegócio. Hoje a página oficial informa as duas fases como encerradas e diz que o relatório da segunda está "em construção".
O que mudou no Drex entre 2025 e 2026
O piloto usava uma rede de registro distribuído (DLT, do inglês distributed ledger technology, a família de tecnologias que inclui a blockchain) baseada no Hyperledger Besu. O problema mais citado desde a primeira fase foi a privacidade. Numa blockchain, os participantes compartilham o mesmo registro de transações, e garantir o sigilo bancário e a proteção de dados exigidos pela lei brasileira nesse ambiente se mostrou difícil. As soluções de privacidade testadas não convenceram o BC de que estavam maduras.
Em agosto de 2025, o coordenador do Drex no BC, Fabio Araujo, confirmou em eventos do setor que a etapa seguinte deixaria a blockchain de lado, ao menos no início. Em novembro, segundo a imprensa, o BC comunicou aos participantes o desligamento da plataforma do piloto. No fim de 2025, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou que a tecnologia testada "não se mostrou viável", mas que o banco não abandonou o objetivo de tirar do papel uma infraestrutura pública para ativos digitais.
Em fevereiro de 2026, o Tribunal de Contas da União (TCU) publicou o Acórdão 288/2026, de uma auditoria sobre o projeto. O tribunal considerou adequada a condução pelo BC, apontou a privacidade dos dados como o principal desafio em aberto, criou duas listas de verificação de boas práticas, uma para moedas digitais e outra para tecnologias como blockchain, e determinou que o BC envie relatórios periódicos sobre o andamento.
E agora? Segundo reportagem de agosto de 2026 do portal Let's Money, nenhuma nova etapa do piloto foi aberta desde o fim de 2025, e fontes de mercado ouvidas pelo jornal Valor Econômico esperam a retomada só em 2027. O BC não divulgou cronograma oficial. Enquanto isso, a tokenização segue pelas mãos do mercado: a Anbima iniciou em julho de 2026 testes de um piloto próprio com fundos e debêntures, e a B3 desenvolve iniciativas de tokenização e uma stablecoin atrelada ao real.
O Drex não deve mudar nada no seu dia a dia, nem no da sua empresa, no curto prazo. Desconfie de quem vende "integração com o Drex" ou "pagamento em real digital" como produto pronto. As novidades concretas de pagamento estão no Pix e no Open Finance, e são tema do artigo sobre tendências de pagamentos para 2027.
O que é reconciliação de gravames, o novo foco
Gravame é a marca jurídica que indica que um bem ou ativo está comprometido, por exemplo dado em garantia de um empréstimo. Um carro financiado tem gravame até a última parcela. Um CDB ou um título público podem ser usados como garantia de um crédito, e também ficam marcados.
O problema é que esses registros ficam espalhados por sistemas diferentes: registradoras, depositárias, cartórios, departamentos de trânsito, bancos. Antes de aceitar um ativo como garantia, a instituição precisa ter certeza de que ele não está comprometido em outro lugar. Quando essa verificação é lenta, cara ou incompleta, o crédito com garantia fica mais caro e mais raro, e o tomador acaba recorrendo a linhas sem garantia, com juros maiores.
A reconciliação de gravames é justamente cruzar essas informações de forma integrada, para que um ativo registrado em uma instituição possa servir de garantia em outra com segurança. Segundo as informações divulgadas pelo BC e pela imprensa desde 2025, essa é a primeira entrega prevista para o Drex depois da mudança de rumo, em uma solução centralizada, sem blockchain, voltada a instituições financeiras. A lógica é parecida com a do registro de recebíveis de cartão, que já permite usar vendas futuras como garantia com controle de quem tem direito sobre elas.
Drex, Pix, cripto e stablecoin: as diferenças
Os quatro termos aparecem juntos com frequência, mas tratam de coisas bem diferentes.
| O que é | Quem emite ou opera | Para que serve | Situação no fim de 2026 | |
|---|---|---|---|---|
| Pix | Sistema de pagamentos instantâneos | Banco Central, com instituições participantes | Transferir e pagar com reais que já estão em conta, em segundos | Em funcionamento desde novembro de 2020 |
| Drex | Projeto de plataforma para liquidar operações com ativos digitais | Banco Central, com acesso por instituições autorizadas | Entrega contra pagamento e crédito com garantia | Piloto encerrado, sem lançamento nem nova fase com data |
| Criptomoeda | Ativo digital sem emissor central, com preço livre | Redes descentralizadas, como a do bitcoin | Investimento e transferências | Não é moeda de curso legal; as prestadoras de serviço têm regras do BC desde novembro de 2025 |
| Stablecoin | Criptoativo com valor atrelado a uma moeda, como o dólar | Empresas privadas | Pagamentos, remessas e reserva de valor em moeda estrangeira | Certas operações passaram a seguir as regras do mercado de câmbio |
A diferença com o Pix é a mais importante. O Pix move dinheiro que já existe, de uma conta para outra, na hora. O Drex nunca foi pensado para substituí-lo: a ideia era permitir operações condicionadas, em que dinheiro e ativo mudam de dono juntos. Os dois podem conviver, e o Pix segue evoluindo por conta própria, como mostra o guia completo do Pix.
Com criptomoedas e stablecoins, a diferença está no emissor. O Drex teria o real como lastro e o Banco Central por trás. Criptomoedas não têm emissor que garanta o valor, e stablecoins dependem da empresa que as emite e das reservas que ela diz manter. Em 10 de novembro de 2025, o BC publicou as Resoluções BCB nº 519, 520 e 521, que estabeleceram regras de autorização e funcionamento para as prestadoras de serviços de ativos virtuais e enquadraram no mercado de câmbio operações como pagamentos e transferências internacionais feitos com esses ativos.
O que muda para pessoas e empresas
Para o cidadão, nada por enquanto. Não existe carteira de Drex, aplicativo oficial ou cadastro para usar o real digital. O dinheiro em espécie, a conta no banco e o Pix continuam como estão.
Isso abre espaço para golpe. Mensagens que oferecem "ativar o Drex", "converter a poupança em real digital" ou "resgatar valores do Drex" são falsas. O Banco Central não pede dados pessoais nem senha por mensagem. Saiba reconhecer essas abordagens em golpes digitais e phishing.
Para empresas e instituições financeiras, o que vale acompanhar:
- Crédito com garantia. Se a reconciliação de gravames sair do papel, usar investimentos e bens como garantia deve ficar mais simples, o que pode baratear linhas de capital de giro.
- Tokenização pelo mercado. Pilotos de entidades como a Anbima e iniciativas de infraestruturas de mercado seguem independentes do Drex.
- Regras de ativos virtuais. Quem pensa em receber ou pagar com stablecoins precisa observar as normas do BC de novembro de 2025.
- Pix e Open Finance. São as infraestruturas públicas que de fato mudam pagamentos e dados hoje. Veja o que é Open Finance.
O Drex mostrou um caminho comum em inovação pública: começou ambicioso, testou em ambiente controlado, esbarrou em um limite técnico e legal e foi redesenhado. A parte que sobreviveu, garantias e ativos digitais, é menos visível que uma moeda nova, mas pode ter efeito real sobre o custo do crédito no Brasil.
Perguntas frequentes
O Drex já está funcionando?
Não. As duas fases do piloto foram encerradas, a plataforma de testes foi desligada em novembro de 2025 e, até o início de novembro de 2026, o Banco Central não havia anunciado data para uma nova etapa nem lançamento para a população.
O Drex vai substituir o dinheiro em espécie ou o Pix?
Não. Desde o início, o Banco Central apresentou o Drex como um complemento, voltado a operações com ativos digitais, e não como substituto do papel-moeda ou do Pix. O Pix segue funcionando normalmente.
O Drex é uma criptomoeda?
Não. Criptomoedas como o bitcoin não têm emissor central e têm preço livre. O Drex foi pensado como uma representação digital do real, sob controle do Banco Central e acessada por meio de instituições autorizadas, com o mesmo valor da moeda física.
O Banco Central desistiu do Drex?
O BC desligou a plataforma em blockchain testada no piloto e reduziu a ambição do projeto. Representantes do banco disseram que o projeto não acabou, mas que deixou de ser uma moeda digital do BC e passou a mirar infraestrutura para operações de crédito com garantia e ativos tokenizados.
O que é reconciliação de gravames?
É verificar, de forma integrada entre instituições, se um bem ou ativo já está dado em garantia antes de aceitá-lo em uma nova operação de crédito. Foi apontada como a primeira entrega do Drex depois da mudança de rumo, sem uso de blockchain.
Preciso fazer algo para usar o Drex?
Não. Não existe carteira de Drex para o público, nem cadastro ou aplicativo oficial. Mensagens que pedem dados ou pagamento para ativar o Drex são golpe.




