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Tendências

Drex: o que é o real digital e em que pé está o projeto do Banco Central

Drex, o real digital do Banco Central: o que é, o que o piloto testou, por que a blockchain saiu do plano e em que pé o projeto está no fim de 2026.

Quatro moedas de real, de um real, cinquenta e dez centavos, sobre uma superfície de madeira escura
Foto: Eduardo Soares / Unsplash
Neste artigo
  1. O que é o Drex
  2. O que é uma CBDC
  3. Linha do tempo do piloto Drex
  4. O que mudou no Drex entre 2025 e 2026
  5. O que é reconciliação de gravames, o novo foco
  6. Drex, Pix, cripto e stablecoin: as diferenças
  7. O que muda para pessoas e empresas
  8. Perguntas frequentes

O Drex é o projeto do Banco Central para criar o real digital, uma plataforma para liquidar operações com ativos digitais em moeda de banco central. Ele passou por duas fases de piloto entre 2023 e 2025, testando blockchain com bancos e outras instituições. Em 2025, o BC mudou de rumo: desligou a plataforma de testes, disse que a tecnologia não se mostrou viável e passou a mirar uma entrega menor, sem blockchain, focada em garantias de crédito. Até o início de novembro de 2026, não há Drex para a população nem data oficial para a próxima etapa.

Resumo rápido

  • Drex era o nome da moeda digital do Banco Central (CBDC, na sigla em inglês) e da plataforma em que ela circularia.
  • O piloto teve duas fases, ambas encerradas: a primeira testou privacidade e programabilidade; a segunda, 13 casos de uso com ativos tokenizados.
  • Em novembro de 2025, o BC desligou a plataforma em blockchain. O motivo central foi a dificuldade de garantir a privacidade exigida pela lei.
  • O foco passou a ser a reconciliação de gravames, para facilitar o crédito com garantia. Representantes do BC dizem que o projeto deixou de ser uma CBDC.
  • O Drex não substitui o dinheiro em espécie nem o Pix, e não é criptomoeda. Não há nada que o cidadão precise fazer.

O que é o Drex

O Banco Central divulgou as primeiras diretrizes do chamado Real Digital em maio de 2021. Em agosto de 2023, o projeto ganhou o nome Drex. Segundo o BC, o "d" e o "r" fazem referência a Real Digital, o "e" vem de eletrônico e o "x" traz a ideia de conexão, como no Pix.

A proposta original, que ainda aparece na página oficial do projeto, era criar um ambiente integrado e padronizado em que vários tipos de operação com ativos digitais fossem liquidados de forma segura. O cliente acessaria a plataforma por meio de uma instituição autorizada, como um banco, que converteria o saldo da conta em Drex na sua carteira digital.

O exemplo que o BC usa é a compra de um carro. Hoje, comprador e vendedor desconfiam um do outro: quem paga primeiro corre o risco de não receber o documento, e quem transfere primeiro corre o risco de não receber o dinheiro. Com um contrato inteligente, a operação só se conclui quando as duas partes cumprem a sua parte, e dinheiro e propriedade trocam de mãos ao mesmo tempo. Se algo falha, cada um fica com o que tinha. Esse mecanismo se chama entrega contra pagamento (DvP, do inglês delivery versus payment).

No piloto, as transações eram liquidadas em duas versões da moeda: o Drex de atacado, usado entre instituições, e o Drex de varejo, que representaria o dinheiro dos clientes. Usuários finais não participaram: as operações deles eram simuladas.

O que é uma CBDC

CBDC é a sigla em inglês para Central Bank Digital Currency, moeda digital de banco central. É dinheiro emitido diretamente pelo banco central em formato digital, com o mesmo valor da moeda física. A diferença para o saldo que você já tem no banco é sutil, mas importante: o saldo em conta é uma dívida do seu banco com você, enquanto a CBDC seria uma obrigação do próprio banco central, como a cédula na sua carteira.

Há dois tipos. A CBDC de atacado circula só entre instituições financeiras, para liquidar operações entre elas. A CBDC de varejo fica à disposição do público. Vários países estudam ou testam moedas desse tipo, e poucos as colocaram em uso amplo.

No Brasil, a ideia de uma CBDC perdeu força. Em novembro de 2025, Breno Lobo, chefe-adjunto do Departamento de Competição e de Estrutura do Mercado Financeiro do BC, afirmou em evento que o banco "deu um passo para trás" e que o projeto "não é uma CBDC". Segundo ele, o objetivo passou a ser uma infraestrutura para contratos inteligentes que garantam a entrega contra pagamento.

Linha do tempo do piloto Drex

O piloto foi instituído pela Resolução BCB nº 315, de abril de 2023. Na primeira fase, o BC recebeu 36 propostas, de mais de 100 instituições, e selecionou 16 participantes, entre bancos, cooperativas, instituições de pagamento e empresas de tecnologia. A incorporação à plataforma começou em julho de 2023, e o caso de uso testado foi a compra e venda de título público federal entre clientes de instituições diferentes, para avaliar privacidade e programabilidade.

A segunda fase começou em setembro de 2024, com regulamento atualizado pela Resolução BCB nº 423. Foram escolhidos 13 temas a partir de 42 propostas, entre eles cessão de recebíveis, crédito com garantia em CDB e em títulos públicos, transações com imóveis, automóveis, debêntures e ativos do agronegócio. Hoje a página oficial informa as duas fases como encerradas e diz que o relatório da segunda está "em construção".

Maio de 2021 BC divulga diretrizes do Real Digital 2023 Fase 1 do piloto e o nome Drex (agosto) Setembro de 2024 Fase 2: 13 casos de uso com ativos tokenizados Agosto de 2025 BC anuncia próxima etapa sem blockchain Novembro de 2025 Plataforma do piloto é desligada 2026 Foco em gravames; nova fase sem data
Os principais marcos do Drex, segundo o Banco Central e a imprensa. Situação no início de novembro de 2026.

O que mudou no Drex entre 2025 e 2026

O piloto usava uma rede de registro distribuído (DLT, do inglês distributed ledger technology, a família de tecnologias que inclui a blockchain) baseada no Hyperledger Besu. O problema mais citado desde a primeira fase foi a privacidade. Numa blockchain, os participantes compartilham o mesmo registro de transações, e garantir o sigilo bancário e a proteção de dados exigidos pela lei brasileira nesse ambiente se mostrou difícil. As soluções de privacidade testadas não convenceram o BC de que estavam maduras.

Em agosto de 2025, o coordenador do Drex no BC, Fabio Araujo, confirmou em eventos do setor que a etapa seguinte deixaria a blockchain de lado, ao menos no início. Em novembro, segundo a imprensa, o BC comunicou aos participantes o desligamento da plataforma do piloto. No fim de 2025, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou que a tecnologia testada "não se mostrou viável", mas que o banco não abandonou o objetivo de tirar do papel uma infraestrutura pública para ativos digitais.

Em fevereiro de 2026, o Tribunal de Contas da União (TCU) publicou o Acórdão 288/2026, de uma auditoria sobre o projeto. O tribunal considerou adequada a condução pelo BC, apontou a privacidade dos dados como o principal desafio em aberto, criou duas listas de verificação de boas práticas, uma para moedas digitais e outra para tecnologias como blockchain, e determinou que o BC envie relatórios periódicos sobre o andamento.

E agora? Segundo reportagem de agosto de 2026 do portal Let's Money, nenhuma nova etapa do piloto foi aberta desde o fim de 2025, e fontes de mercado ouvidas pelo jornal Valor Econômico esperam a retomada só em 2027. O BC não divulgou cronograma oficial. Enquanto isso, a tokenização segue pelas mãos do mercado: a Anbima iniciou em julho de 2026 testes de um piloto próprio com fundos e debêntures, e a B3 desenvolve iniciativas de tokenização e uma stablecoin atrelada ao real.

Na prática

O Drex não deve mudar nada no seu dia a dia, nem no da sua empresa, no curto prazo. Desconfie de quem vende "integração com o Drex" ou "pagamento em real digital" como produto pronto. As novidades concretas de pagamento estão no Pix e no Open Finance, e são tema do artigo sobre tendências de pagamentos para 2027.

O que é reconciliação de gravames, o novo foco

Gravame é a marca jurídica que indica que um bem ou ativo está comprometido, por exemplo dado em garantia de um empréstimo. Um carro financiado tem gravame até a última parcela. Um CDB ou um título público podem ser usados como garantia de um crédito, e também ficam marcados.

O problema é que esses registros ficam espalhados por sistemas diferentes: registradoras, depositárias, cartórios, departamentos de trânsito, bancos. Antes de aceitar um ativo como garantia, a instituição precisa ter certeza de que ele não está comprometido em outro lugar. Quando essa verificação é lenta, cara ou incompleta, o crédito com garantia fica mais caro e mais raro, e o tomador acaba recorrendo a linhas sem garantia, com juros maiores.

A reconciliação de gravames é justamente cruzar essas informações de forma integrada, para que um ativo registrado em uma instituição possa servir de garantia em outra com segurança. Segundo as informações divulgadas pelo BC e pela imprensa desde 2025, essa é a primeira entrega prevista para o Drex depois da mudança de rumo, em uma solução centralizada, sem blockchain, voltada a instituições financeiras. A lógica é parecida com a do registro de recebíveis de cartão, que já permite usar vendas futuras como garantia com controle de quem tem direito sobre elas.

Drex, Pix, cripto e stablecoin: as diferenças

Os quatro termos aparecem juntos com frequência, mas tratam de coisas bem diferentes.

O que éQuem emite ou operaPara que serveSituação no fim de 2026
PixSistema de pagamentos instantâneosBanco Central, com instituições participantesTransferir e pagar com reais que já estão em conta, em segundosEm funcionamento desde novembro de 2020
DrexProjeto de plataforma para liquidar operações com ativos digitaisBanco Central, com acesso por instituições autorizadasEntrega contra pagamento e crédito com garantiaPiloto encerrado, sem lançamento nem nova fase com data
CriptomoedaAtivo digital sem emissor central, com preço livreRedes descentralizadas, como a do bitcoinInvestimento e transferênciasNão é moeda de curso legal; as prestadoras de serviço têm regras do BC desde novembro de 2025
StablecoinCriptoativo com valor atrelado a uma moeda, como o dólarEmpresas privadasPagamentos, remessas e reserva de valor em moeda estrangeiraCertas operações passaram a seguir as regras do mercado de câmbio

A diferença com o Pix é a mais importante. O Pix move dinheiro que já existe, de uma conta para outra, na hora. O Drex nunca foi pensado para substituí-lo: a ideia era permitir operações condicionadas, em que dinheiro e ativo mudam de dono juntos. Os dois podem conviver, e o Pix segue evoluindo por conta própria, como mostra o guia completo do Pix.

Com criptomoedas e stablecoins, a diferença está no emissor. O Drex teria o real como lastro e o Banco Central por trás. Criptomoedas não têm emissor que garanta o valor, e stablecoins dependem da empresa que as emite e das reservas que ela diz manter. Em 10 de novembro de 2025, o BC publicou as Resoluções BCB nº 519, 520 e 521, que estabeleceram regras de autorização e funcionamento para as prestadoras de serviços de ativos virtuais e enquadraram no mercado de câmbio operações como pagamentos e transferências internacionais feitos com esses ativos.

O que muda para pessoas e empresas

Para o cidadão, nada por enquanto. Não existe carteira de Drex, aplicativo oficial ou cadastro para usar o real digital. O dinheiro em espécie, a conta no banco e o Pix continuam como estão.

Isso abre espaço para golpe. Mensagens que oferecem "ativar o Drex", "converter a poupança em real digital" ou "resgatar valores do Drex" são falsas. O Banco Central não pede dados pessoais nem senha por mensagem. Saiba reconhecer essas abordagens em golpes digitais e phishing.

Para empresas e instituições financeiras, o que vale acompanhar:

  • Crédito com garantia. Se a reconciliação de gravames sair do papel, usar investimentos e bens como garantia deve ficar mais simples, o que pode baratear linhas de capital de giro.
  • Tokenização pelo mercado. Pilotos de entidades como a Anbima e iniciativas de infraestruturas de mercado seguem independentes do Drex.
  • Regras de ativos virtuais. Quem pensa em receber ou pagar com stablecoins precisa observar as normas do BC de novembro de 2025.
  • Pix e Open Finance. São as infraestruturas públicas que de fato mudam pagamentos e dados hoje. Veja o que é Open Finance.

O Drex mostrou um caminho comum em inovação pública: começou ambicioso, testou em ambiente controlado, esbarrou em um limite técnico e legal e foi redesenhado. A parte que sobreviveu, garantias e ativos digitais, é menos visível que uma moeda nova, mas pode ter efeito real sobre o custo do crédito no Brasil.

Perguntas frequentes

O Drex já está funcionando?

Não. As duas fases do piloto foram encerradas, a plataforma de testes foi desligada em novembro de 2025 e, até o início de novembro de 2026, o Banco Central não havia anunciado data para uma nova etapa nem lançamento para a população.

O Drex vai substituir o dinheiro em espécie ou o Pix?

Não. Desde o início, o Banco Central apresentou o Drex como um complemento, voltado a operações com ativos digitais, e não como substituto do papel-moeda ou do Pix. O Pix segue funcionando normalmente.

O Drex é uma criptomoeda?

Não. Criptomoedas como o bitcoin não têm emissor central e têm preço livre. O Drex foi pensado como uma representação digital do real, sob controle do Banco Central e acessada por meio de instituições autorizadas, com o mesmo valor da moeda física.

O Banco Central desistiu do Drex?

O BC desligou a plataforma em blockchain testada no piloto e reduziu a ambição do projeto. Representantes do banco disseram que o projeto não acabou, mas que deixou de ser uma moeda digital do BC e passou a mirar infraestrutura para operações de crédito com garantia e ativos tokenizados.

O que é reconciliação de gravames?

É verificar, de forma integrada entre instituições, se um bem ou ativo já está dado em garantia antes de aceitá-lo em uma nova operação de crédito. Foi apontada como a primeira entrega do Drex depois da mudança de rumo, sem uso de blockchain.

Preciso fazer algo para usar o Drex?

Não. Não existe carteira de Drex para o público, nem cadastro ou aplicativo oficial. Mensagens que pedem dados ou pagamento para ativar o Drex são golpe.

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